Incondicional

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  Nunca faltou respeito. Nunca faltou carinho. Nunca faltou amor. A nossa história era real. Os momentos que vivemos, eu levarei sempre comigo. O primeiro beijo. As sessões de cinema no sofá da sala da nossa casa, onde nos deitávamos os dois. Os fins de tarde na Lagoa Azul. O sorriso dela que fazia o meu tempo parar. A sua mão a apertar a minha, sempre que eu passava por momentos menos bons. Todas essas memórias, irão ficar pra sempre comigo. Deus sabe o quanto eu queria que nós dessemos certo. O quanto eu me dediquei. As noites em que sonhei. O quanto fiz de tudo para que ela nunca mais saísse da minha vida, e eu da vida dela. Perdi as vezes em que engoli o meu orgulho. Perdi as vezes em que a vi ir dormir a chorar, e abraçava-a a noite inteira. Sim, ela também se esforçava. Com o seu feitio muito próprio, mas esforçava-se.

  Mas com o tempo tudo mudou. Reparei que a pouco e pouco, nós íamos morrendo um para o outro. Quando comecei a dar conta, já os momentos de tristeza ultrapassavam os de alegria. A nossa relação tornou-se num mar de discussões, lágrimas e raiva. Posse. Comodismo. Insegurança. Ciúmes. Nós os dois eramos os únicos a ver uma fogueira onde toda a gente só via cinzas. Os nossos pais e amigos sabiam que a história estava a chegar ao fim. A nossa história. Nossa já não era. Nem sequer história. Foi um dia. Uma das mais lindas que já vi. Mas foi-se. Acabou. É difícil aceitar que algo tão bonito como o que nós tínhamos, ia acabar assim. Mas mais vale irmos ser felizes noutro sítio, do que infelizes no mesmo. Ambos nos fartámos daquele sentimento de solidão enquanto estávamos juntos. Cansámo-nos de nos prender a algo que já não existia. Quando ela disse que se ia embora, eu nem insisti que ficasse. Até ajudei a levar as coisas para baixo. As discussões consumiram-nos a força. Estávamos algemados um ao outro, com as chaves dentro do bolso. Mas por fim, libertámo-nos. Durante muito tempo culpei-a pelo nosso fim. Durante muito tempo fingi que só ela tinha errado. Mas hoje não, hoje vou admitir que eu também errei, e muito. Hoje admito que errei bem mais do que ela. Hoje admito que se eu tivesse feito mais, nós seríamos mais. Mais unidos. Mais compreensíveis. Mais carinhosos. Mais. Mas tudo o que conseguimos foi ser menos. Menos amor. Menos respeito. Menos confiança. Menos. Eramos 1 mais 1 e demos 0.

  Faz hoje 10 anos que não a vejo. E continuo com a mesma saudade. Dizem que deixar alguém ir é sinal de fraqueza. É mentira. É preciso ser-se muito forte para tirarmos da nossa vida algo que queríamos muito manter. Também dizem que às vezes não sentimos falta da pessoa, mas sim dos momentos. Pode até ser verdade. Mas eu juro que já vi pores-do-Sol com outras pessoas, já presenciei sorrisos encantadores, já assisti Netflix a noite inteira. A Lagoa Azul já foi destino dos meus passeios. Até beijei outras pessoas e outras mãos já apertaram a minha quando estive mais em baixo. Já repeti todos os momentos que passei com ela, e nenhum deles me preencheu tanto. O seu sorriso nunca se afastou da minha mente e a cara dela nunca se desvaneceu. As minhas roupas ainda cheiram a ela. Não entendo, já que elas são novas. Ainda ouço a sua voz a dizer-me “bom dia tolo” todas as manhãs quando acordo. Viro a cara cada vez que alguém grita o seu nome, achando que ela vai por algum acaso, aparecer. Ainda é a última pessoa em quem penso quando vou dormir. Ainda é a primeira pessoa que me vem à cabeça quando tenho uma boa notícia para contar. E apesar de sentir que nunca vou estar preparado para ser feliz sem ela, preparei-me para ser feliz com o que a vida me dá. Não interessa quantos olhares eu troque durante a minha vida, não irei olhar daquela forma para mais ninguém. Vou ter afinal, que inventar um novo sorriso, porque aquele sorriso é apenas dela. Vou ter de pedir um novo abraço, porque aquele seu abraço vai permanecer guardado no baú. Vou ter de criar novos beijos porque nunca mais irei usar o beijo que deu à palavra amor o significado que o meu coração hoje conhece. E assim vou ter de viver até aos últimos dias da minha vida. Talvez nós tenhamos sido feitos para sermos estranhos. Talvez. Há pessoas que passam na nossa vida apenas para nos ensinarem coisas. É essa a missão delas. Foi essa a dela. Ensinar-me o que quer dizer a palavra INCONDICIONAL.

 

Rosdet Nascimento

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