Sim, a minha mãe morreu!

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  Sem querer volto ao dia em que te perdi. Ainda custa absorver o que escrevo. Custa porque a verdade bate de frente comigo e sou obrigada a cerrar os dentes, fechar os olhos e dizer “sim, a minha mãe morreu“.

  Há um ano, por esta hora, estava deitada ao teu lado. De mão dada contigo e chorava baixinho. Hoje sei que era medo. Queria dizer te tanta coisa mas era injusto quebrar a tua coragem para amenizar a dor que eu sentia, e a que adivinhava chegar, com certeza, a triplicar. Tentei umas quantas vezes falar contigo. Quis tentar saber o que sentias ao saberes que a vida ia fugir de ti. Quis dizer-te para não teres medo. Eu ia estar ao teu lado e sempre disposta a negociar com a vida. De facto é verdade que em momentos como este agarramo-nos a tudo. Não adiantava fugir. Não adiantava com todas as forças tentar acreditar que connosco haveria um milagre. No fundo sabia que não. Por mais injusto que fosse, por mais angustiante, doloroso e penoso, não ia haver milagre e a vida não estava disposta a negociar. A vida ia fugir-te, e eu ia perder-te. Não haveria nada no mundo que pudesse evitar isso, e eu sabia-o. Tu idem. Optamos por esperar. Cada uma com o seu motivo e ambas respeitamos esse espaço onde só cabia dor e medo. Pouco ou nada havia a dizer, embora a minha vontade sempre fosse a de dizer-te que estava apavorada. Queria explicar-te que tu eras tudo o que eu conhecia. A minha única verdade. Queria ter-te dito que ainda precisava muito de ti. Que tu eras o meu pilar. Que eu suportava qualquer dor que a vida me desse, menos, perder-te.

  Em segredo e bem camuflado com a capa de mulher indestrutível, eu tinha um ponto fraco. Apenas um. Eras tu. E sem aviso, senti que me esfaqueavam. Mas de dentro para fora. Acho que quando uma pessoa é esfaqueada com esta brutalidade a dada altura, deixa de sentir dor, porque os golpes são fatais. Comigo não. Já não tenho sequer por onde ser mais golpeada, mas continuo a sentir facas em mim. Nada adormece a dor. Nem mesmo nos dias em que me obrigo a ir dormir porque é só aí que não dói. E há um ano adormeço a chorar. Sei que a dor volta ao amanhecer e vai ser só mais um dia, a implorar por anestesias da alma ou pelo dito sono. É como estar no chão de um ringue de boxe a levar porrada. Só que no inicio já se conhece o derrotado. Perdi. Sangro por todos os lados e estou toda partida. Mas nesta luta não há apito final. Não sinto o corpo. Tenho de levantar-me. Já perdi, mas ainda respiro. Não tenho mais forças para lutar mas neste jogo a regra é não estagnar. Ou morro, ou luto. E a filha da puta da vida não consegue matar-me e não me deixa ganhar.

  Estou tramada mãe. Tenho a garganta entupida com infinitas coisas que precisava que soubesses. Queria perguntar-te porque esperaste que saísse do teu quarto para te renderes. Queria perguntar-te se por algum instante pensaste no que ia sentir quando te encontrasse sem vida. Sim mãe. Eu senti. Liguei para o trabalho a dizer que ia faltar. Liguei para a avó e para as manas. Vieram cá. Eu estava tonta e obcecada. Disseram que estavas fraquinha mas que ainda não era a hora. Hoje sei que apenas nós sabíamos que sim, que o céu não queria esperar mais por ti. Mas tínhamos que fingir que não. Dei-te o jantar. Avó e mana foram embora. Deitei-me ao teu lado. Transpiravas. Dei-te a mão e chorei baixinho. Era a hora do adeus, mas negar faz parte. Pessoas sem vida não transpiram, pensei eu. Respiravas ofegante. Mas isso era o cabrão do tumor que por aquela altura nem água te deixava beber. O meu corpo cedia… tinham sido meses de correria entre hospital, trabalho, consultas… Eu já não comia… qualquer tempo que tivesse, seria para me deitar e dormir o que fosse possível. E se não fosse possível, paciência! Primeiro estavas tu! E tantas vezes saia do hospital a chorar. Uma vez pediste-me um queque. Apetecia te muito. Eu estava de direta. O meu mau parecer era óbvio. Dei-te um sorriso e caiu-me uma lágrima. Claro que ia buscar-te o queque à outra ponta do hospital. Até ao outro lado do mundo. Finjo um sorriso e entro no quarto. “Tens aqui o queque sua gulosa!” E tu disseste ” já não me apetece“. “Eu sou forte. Aguenta agora. Tens tempo para chorar no trajeto até ao trabalho” Pensei. Mas apenas disse “Ok. Tentas comer mais logo ou amanhã de manhã”. Quando íamos á quimioterapia e eu me levantava de repente e dizia que ia à casa de banho… eu ia chorar mãe. Sentava-me no chão e berrava! Queria negociar com a vida! Tu ficavas e eu ia. Qualquer negócio em que te tirassem da “guerra”, para mim era negócio fechado. Mas eu gritava, chorava, e de volta apenas o eco do meu choro e dos meus gritos. Não ia haver porra de negócio nenhum e já tinha passado tempo de fazer xixi. Limpava as lágrimas e ia ter contigo a esfregar os olhos. Uma poeira qualquer devia bastar para justificar os olhos vermelhos. Mas agora vou voltar á parte de me deitar ao teu lado, de dar-te a mão e de tu transpirares. Este episódio carrega culpa. Válida ou não. Não importa. Precisava de dormir. Dali a 3 horas tinha de levantar me para dar-te a medicação. Dei te um beijo na testa e fui para o meu quarto. Sempre com um aperto, mas como diziam, eu era tonta! Acordo em sobressalto. Não era hora da medicação, mas já devias ter chamado por mim para pedir qualquer coisa. As minhas pernas tremiam. Ia em direção ao teu quarto a chamar por ti. “Mãe! Mãe!” E foi então que morri.

  Há um ano que chamo por ti. Há um ano que choro por ti. Falo contigo. Faço perguntas e digo-te como dói. Não sei onde estás nem porque não respondes. Vejo as tuas fotografias e cheiro as tuas roupas. Choro. Volto a chorar. Este desfecho era impensável. Foi um soco no estômago. Foi um terramoto na minha vida. Todos os dias são uma catástrofe e de vez em quando surgem cores. Mas são escassos segundos. O preto e branco teimam em permanecer. Tento ser forte. Vou sempre tentar. Devo-te isso. Se não conseguir, põe a mão no meu coração. Sente bem aquilo que eu sinto e depois disso sim, hás de perdoar-me se por acaso algum dia me faltar a coragem. Hás de perdoar-me também umas tantas outras coisas. Espero perdoar-me também. Sabes que te amo não sabes…? Tens de saber! Serei sempre a tua ratinha. A bebé que não chorava nem falava, virou menina, e a menina virou mulher. Dizias “tens mesmo a quem sair!” Ensinaste-me a ser forte e irreverente. Indestrutível. Dizias que eu era louca. E sorrias. Se estás aí agora e ouves o que digo, sabes que voltava a chorar se me pedisses a porra do queque e não o comesses depois. Mas também hás de saber, que com ou sem lágrimas eu ia correr o mundo para satisfazer a tua vontade, por mais caprichosa que ela fosse… merecias tudo mãe. Não apenas porque me deste vida mas pela mulher que foste. O meu coração é teu mamã. És o meu orgulho e a minha força.

Desculpa se falhei.

Amo-te para sempre

 

Isabel Marques Silva

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