Mentira

dado-certo

  Dizem que o tempo ajuda. É mentira. Talvez mais mentira do que o teu “amo-te”. O tempo piora as coisas. A saudade aumenta e a dor acumula. A única diferença é que aprendo a lidar com isso todos os dias. Parece que não andar bem é andar normal, não está certo. Por muito tempo que passe, sempre que ouvir o teu nome não vou ficar indiferente, afinal não sou como tu que consegue esquecer tudo sem remorsos.

  Podes ter dito muito mais vezes que me amas durante todos estes anos que estivemos juntos, mas nunca sentiste verdadeiramente o que dizias. Não te censuro. Sempre foste de acompanhar modas. E afinal amar é uma moda que nunca passa de moda, pois faz-nos sentir bem e parece que quando dizemos “amo-te” a alguém, estamos a completá-la. É mentira. Estamos a esvaziá-la. A esvaziá-la de conhecimento, intuição e discernimento. Porque ouvir “amo-te” da boca de quem amamos, cega-nos. E é muito mais fácil iludir quem não vê com o coração.

  O teu amor temporário, durável e por isso, falso, foi bom. Ajudou-me a sonhar durante anos e a crescer como homem. Ajudou-me a filtrar as impurezas mascaradas de coisas boas e a perceber o que realmente queria, o que realmente tinha valor para ser disputado. Esqueci paixões antigas, enterrei passados sem importância e afastei aventuras desnecessárias. Privei-me muitas vezes da minha própria vida para alimentar a tua, a nossa. Porque o amor é assim. Damos parte de nós a quem supostamente devia completar-nos, e ficamos assim incompletos, e descobrimos que afinal durante este tempo todo estivemos sozinhos. Vais-te embora como se nada tivesse acontecido, e voltas todas as noites nos meus sonhos como se nunca tivesses partido. Os sonhos que sempre idealizei. Acordar ao lado de duas princesas. Uma ao acordar, chama-me de amor, a outra ao despertar chama-me de pai… Levanto-me. E percebo que se sonhos fossem realidade, não precisaríamos de dormir para conhecê-los. A vida é com os olhos abertos. Mas a vida, além de ver, também é escutar. Escutar aquela voz chamada intuição, que tanto nos apoquentou no inicio ao dizer que não ia dar certo, mas que nós não ligámos porque tínhamos pressa de ser felizes. Por falar em escutar, ainda não me esqueci da última coisa que me disseste antes de te ires embora. “Apesar de tudo, és o homem da minha vida. Nunca te esqueças disso.”

É mentira. E eu prefiro a mais nua verdade, à mentira mais bem vestida.

[por Rosdet Nascimento]

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