O que faz parte de nós, nunca nos deixa

O que faz parte de nos, nunca nos deixa para sempre_blog

  Há dias, estive à conversa com um senhor, que por acaso era indigente. Abordou-me à saída da estação do Rossio. Eu não tinha dinheiro, na mão levava apenas um exemplar de um livro que escrevi. Entreguei-o, sem saber que reacção esperar, afinal livros não dão para comer. O homem aceitou-o de bom grado, e uma lágrima escorreu pelo seu rosto. Pediu-me que fizesse companhia pelo menos por 5 minutos. Eu acenei afirmativamente com a cabeça, afinal não tinha para onde ir.

  Começou por contar-me que já foi muito rico, mas a vida deu as suas voltas. Um senhor que tinha tido tudo, mas que acabou por perder tudo. Dinheiro, família e amigos. Quando perdeu o dinheiro, percebeu que os “amigos” se foram também. Quando ficou sem amigos, tentou aproximar-se do único familiar que ainda lhe restava, a sua filha. Mas foi rejeitado. Muitos anos de rancor e falta de afecto enrijeceram o coração magoado da sua filha. O senhor deixou-me a seguir, algumas palavras. Disse-me que as pessoas fortes deixam de tentar quando percebem que já não são bem-vindas, nem queridas. Não tentam consertar, nem mendigar por algo. Afastam-se, quando a sua presença não é mais agradável e muito menos a sua ausência notada. Fez-me alguma confusão. Talvez aceite que alguém que está numa relação contigo, venha um dia deixar de gostar de ti, mas uma filha? Alguém que veio de nós?

  Ele disse-me que aceita o comportamento dela e que nunca a irá julgá-la ou odiá-la por isso. Ele sabe o quanto errou com ela durante tantos anos. Percebi então que quando aceitamos que tudo o que fazemos de errado aos outros iremos um dia pagar por isso, fica mais fácil. Quando não nos colocamos no lugar dos outros antes de magoá-los, a vida coloca-nos depois.

  Após ouvir alguém abrir-se desta maneira comigo, não tive qualquer problema em contar que também fui deixado. Tinha uma relação que aos olhos dos outros era sólida, duradoura e eterna, mas que as duas pessoas que nela estavam sabiam que a verdade não era essa, e duvidavam que fosse durar muito mais. Contei-lhe que quando começámos não havia Facebook, twitter, instagram, youtube… Contei-lhe que pensava que podia estar descansado para o resto da vida, que tinha alguém que iria estar sempre ali para mim até ao fim dos meus dias. Então ele interrompeu-me. Disse-me que a intensidade nada tem a ver com a duração, e que a primeira é bem mais importante que a segunda, no que à felicidade diz respeito. Perguntou-me se eu sentia a falta dela. Eu respondi prontamente que não, mas todo o resto do meu corpo respondeu afirmativamente. Estava na cara. Ele percebeu isso. Disse-me que é depois de uma desilusão que se fica a conhecer quem somos realmente. É fácil amar, perdoar e sorrir quando tudo está bem. Os verdadeiros são aqueles que nos momentos maus continuam a amar, a perdoar e a sorrir contigo. Disse-me que se me deixaram, é porque não era suficientemente importante e muito menos fazia falta. Isso era obviamente problema meu. Mas que se um dia ela sentisse a minha falta, já era problema dela. E normalmente as pessoas sentem a tua falta, se a missão de te substituir falhar.

  Ele disse-me também que se eu dei 100% de mim e mesmo assim não foi o suficiente, na minha vida não podia haver espaços para arrependimentos. Apenas lições. Disse-me ainda que quem quiser estar comigo, encontrará forma de chegar a mim. E que se ao perdê-la, eu me encontrei, então ganhei. Mas a frase com que o senhor encerrou a nossa conversa é a que eu vou guardar para sempre. Ele disse-me que tanto na vida dele como na minha, o que faz parte de nós, nunca nos deixa.

 

P.S.: Uns meses depois, o senhor Monteiro usou o cartão de contacto que eu lhe deixara, juntamente com um livro e ligou-me. Notava-se na sua voz que estava feliz. A filha fez-lhe uma surpresa no seu aniversário, cuidou da aparência do pai e foi jantar com ele. Comeram algodão doce como faziam antes e colocou-o num lar, a 100 metros da sua casa. Viam-se todos os dias. Estava feliz, completo. Podia viver os últimos dias da sua vida em paz. Disse-me que a vida tirou-lhe tudo o que lhe deu. Menos aquilo que fazia parte dele. Para sempre.

 

 

«Podemos procurar tantas coisas na vida, mas as melhores coisas, aquelas que num momento valem para toda a vida, essas são as mais simples. E estas coisas não se procuram, elas nos encontram.» in Guerreiro

[por Rosdet Nascimento]

2 pensamentos sobre “O que faz parte de nós, nunca nos deixa

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