Ninguém ganha para sempre

tanto-fez

  Achei interessante as pessoas terem vindo perguntar-me o que é que eu te fiz para tu estares assim. Que mania esta de achar que quem derrama mais lágrimas é o mais fraco. Que vicio aquele de achar que os que não choram são os culpados. Acenei com a cabeça e vim-me embora. Eles não partilharam das nossas lutas, não iam perceber os nossos motivos. Mas achei interessante. Só isso. Quem levou a facada fui eu, mas foste tu quem fingiu sangrar.

  Eu lutei por nós até à exaustão. Para te reconquistar, cheguei a cometer o erro de me anular por completo. Cometi a contra-ordenação muito grave de mendigar por amor, quando o amor verdadeiro tem de ser oferecido. Errei gravemente quando tentei fazer a minha parte e a tua, para salvar uma relação que vive das duas partes. Durante muito tempo, eu sempre pensei que não era capaz de viver sem ti. Consigo admitir isso. Essa crença durou até há bem pouco tempo, mesmo depois de já teres partido. Mas as coisas foram clareando, e hoje sei que implorar para que ficasses comigo era como admitir que eu não sou nada e que preciso de ti para ser alguém. Percebi depois que não é só para dançar o tango que são precisos dois. Para manter os alicerces de uma relação também. E não é só para dançar o tango que é obrigatório que sejam só dois. Para manter os alicerces de uma relação também. Acho que deu para entender. Assim que a nossa relação deixou de ser a dois, estava condenada. Tinha tanto medo de te perder que demorei a entender que a única coisa que eu perdia era o meu tempo.

  Se quem é deixado tem alguma vantagem sobre quem o deixou, essa vantagem chama-se consciência tranquila. Porque és tu quem vai ter de viver com essa decisão. És tu que vais ter de viver com a pressão de ter de encontrar a pessoa perfeita que tanto pedias enquanto estavas comigo. Aquela pessoa perfeita que sonhavas ter enquanto deliravas com os livros da E. L. James. “Será que há algum Grey por aí?” Nunca me vou esquecer. Não adianta pedir um Grey a Deus, porque Ele não é cupido. És tu que vais ter de acertar com a seta nesse alguém que te vai fazer feliz. E se não fizer, vais ter de actualizar o teu CV e recomeçar novamente. Porque essa foi a vida que escolheste, ao invés de continuar a lutar por quem mais lutou por ti nesta vida.

  E há mais. Eu sei que ter-te perdido, vai fazer com que tenha de me reinventar. Na verdade, achei que depois de tanto tempo contigo, nunca mais precisaria de ir para a fila da vida, tirar senhas como se estivesse na Segurança Social, à espera da minha vez de ser feliz. Pensei que acabaríamos como todos aqueles filmes e livros românticos, felizes para sempre. Mas não, reencarnámos em duas personagens de um qualquer livro do ambíguo Nicholas Sparks, e parece que vamos viver felizes para sempre, longe um do outro. Nós poderíamos ter sido a melhor equipa que o mundo alguma vez viu. Mas tu desististe.

  Vou terminar. Tenho de ir. Vou na esperança de que a minha vez chegará em breve. Na esperança de encontrar alguém que não queira brincar com os meus sentimentos como tu o fizeste. Mas a ti deixo-te amor. Não tenho mais nada para deixar, todo o ódio foi gasto nas mil e umas discussões sem nexo que tivemos. Eu amei-te mal, mas amei-te. Amei-te como ainda te amo, e amarei como souber. Não fui ensinado, e talvez se tivesse sido, não saberia hoje o que era amar de verdade. Ora por mim.

  E por favor, não voltes a fazer do amor um jogo. Desta vez ganhaste, mas ninguém ganha para sempre.

[por Rosdet Nascimento]

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s